Em um mercado historicamente dominado por homens, uma empresa fundada e gerida por mulheres completa uma década de atuação reforçando que competência técnica não tem gênero. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a Litologica, empresa de hidrogeologia sediada no estado do Rio de Janeiro, simboliza não apenas uma trajetória empresarial consolidada, mas também o avanço da presença feminina em setores estratégicos da ciência e da engenharia.
Fundada pelas geólogas Dandara Rodrigues e Fernanda Martins, formadas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a empresa construiu sua história enfrentando desafios que vão além da complexidade científica dos projetos. Em um ambiente ainda marcado por desigualdades estruturais, as profissionais relatam ter lidado com episódios de assédio, questionamentos sobre sua capacidade técnica e a necessidade constante de provar, mais de uma vez, aquilo que seus currículos já demonstravam. Ambas também são sócias fundadoras da Rio Geotour, focada na disseminação do conhecimento de geociências para turistas.
Apesar desse cenário, a Litologica consolidou-se como referência técnica e ética no estado do Rio de Janeiro e vem expandindo sua atuação pelo sudeste, com projetos em andamento em São Paulo e consultorias realizadas também no Espírito Santo e em Minas Gerais.
A empresa atua na área da hidrogeologia — ramo da geologia responsável por estudar a água presente acima e abaixo da superfície terrestre — além de desenvolver consultorias ambientais, análises de solo e água e estudos técnicos fundamentais para obras e empreendimentos. Na prática, isso significa investigar onde está a água, em que quantidade ela pode ser utilizada, se é potável, se está contaminada e quais riscos ambientais podem existir em determinada área.
Esses estudos têm impacto direto na vida cotidiana da população, mesmo quando passam despercebidos. Eles são essenciais para o abastecimento humano, a segurança hídrica, o licenciamento ambiental, o planejamento urbano e a prevenção de desastres naturais.
“O nosso trabalho está diretamente ligado à vida cotidiana, mesmo que muitas pessoas não percebam. A água que chega às casas, às escolas, aos hospitais e às indústrias depende de estudos técnicos sérios e responsáveis”, explicam as sócias fundadoras.
Ao longo dos últimos dez anos, a Litologica esteve envolvida em projetos realizados em áreas urbanas, zonas rurais, favelas, comunidades tradicionais e territórios com vulnerabilidade hídrica. Em uma região marcada por seca permanente e dependência de caminhões-pipa, um estudo hidrogeológico conduzido pela equipe identificou fontes subterrâneas com vazões médias de 20 mil litros por hora, revelando potencial real para autonomia hídrica da população local.
Outro trabalho de destaque aconteceu no bairro de Gramacho, no Rio de Janeiro, onde a distribuição de água é precária. A análise técnica indicou que o caminho mais seguro não seria a abertura de novos poços, mas o tratamento adequado da água já existente em um poço artesiano. A solução trouxe impacto imediato na qualidade de vida de dezenas de famílias.
Além de lidar com desafios técnicos, o trabalho no setor ambiental também envolve dilemas éticos. Em um estudo recente realizado para uma siderúrgica centenária, a empresa identificou diversas fontes de contaminação no terreno. Diante da tentativa do cliente de suprimir informações e distorcer resultados, a equipe optou por manter a integridade científica. O contrato foi rompido, o pagamento não foi realizado e o caso segue na esfera judicial.
“Não negociamos ciência. Não negociamos verdade. Nosso compromisso é com os dados, com o meio ambiente e com a sociedade”, afirmam.
A trajetória da empresa também dialoga com uma transformação maior no país. Segundo o relatório Global Entrepreneurship Monitor (GEM), divulgado pelo Sebrae, 54,6% das pessoas que pretendem empreender no Brasil em 2026 são mulheres. O dado aponta para uma mudança estrutural no perfil do empreendedorismo nacional — movimento que desafia estigmas históricos que ainda associam liderança, ciência e tecnologia ao universo masculino.
Mesmo com esses avanços, especialistas destacam que a equidade plena ainda depende de mudanças profundas no mercado de trabalho e na cultura organizacional de diversos setores. A presença feminina em áreas científicas e técnicas ainda enfrenta barreiras como desigualdade salarial, menor acesso a cargos de liderança e preconceitos arraigados.
Para as fundadoras da Litologica, ampliar a presença de mulheres nesses espaços é também uma forma de transformar a própria ciência.
“Nossa forma de liderar é um diferencial. Temos capacidade técnica, visão estratégica e compromisso humano. Precisamos ser muitas”, afirmam.
Formada no ensino público, a equipe também entende a devolução social do conhecimento como parte de sua missão. Por isso, participa de iniciativas de disseminação das geociências em escolas públicas e atua em projetos sociais voltados à educação ambiental e ao acesso à água. Um exemplo é a pesquisa de mestrado de Dandara, que resultou em um projeto piloto de captação de água de subsistência em Búzios, e foi aceita para apresentação em um congresso internacional da International Federation of Surveyors (FIG) — organização não governamental reconhecida pela ONU, que reúne representantes de mais de 120 países. O evento, que acontecerá na África do Sul, será em maio deste ano.




