A madrugada de 27 de fevereiro de 2026 marcou um ponto de inflexão nas relações entre Paquistão e Afeganistão. Após semanas de tensão crescente na fronteira, o governo paquistanês cruzou uma linha e declarou “guerra aberta” contra seu vizinho. Pouco depois da declaração do ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, bombardeiros paquistaneses atingiram a capital afegã, Cabul, além das províncias de Kandahar e Paktika. O Talibã respondeu com ataques de drones contra instalações militares paquistanesas. O que começou como uma série de confrontos na fronteira evoluiu para um conflito.
A escalada atual não surgiu do nada. Ela é resultado de meses de acusações mútuas, ataques terroristas crescentes e uma deterioração progressiva das relações entre dois países que, apenas alguns anos atrás, eram aliados próximos. Para entender como chegamos a este ponto, é necessário voltar à história recente desses dois vizinhos e aos interesses estratégicos que os movem.
Uma Aliança que Desabou
A história entre Paquistão e Afeganistão é marcada por uma aliança que nasceu da geopolítica da Guerra Fria e sobreviveu durante décadas. O Paquistão foi um dos principais arquitetos da ascensão do Talibã no Afeganistão nos anos 1990, ajudando o movimento fundamentalista a estabelecer seu regime. Essa ação tinha um propósito estratégico claro: conferir ao Paquistão uma “profundidade estratégica” em sua rivalidade histórica com a Índia, seu vizinho oriental e rival geopolítico de longa data.
Quando o Talibã retomou o poder no Afeganistão em 2021, após a retirada das tropas americanas, o Paquistão saudou o retorno do grupo. O então primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, declarou que os afegãos haviam “quebrado as correntes da escravidão”. Parecia que a aliança antiga seria renovada. Mas essa esperança durou pouco.
As relações começaram a se deteriorar rapidamente, e os sinais de ruptura vieram de uma fonte inesperada: a Índia. A partir de 2022, o Afeganistão começou a receber ajuda humanitária da Índia. Esse gesto evoluiu para uma aproximação diplomática mais ampla, culminando em um encontro formal e anúncio de parcerias entre os dois países em outubro de 2025. Para o Paquistão, essa aproximação era uma traição. A Índia, rival histórica do Paquistão, estava se tornando um parceiro estratégico do Afeganistão. O ministro paquistanês da Defesa não hesitou em acusar o Talibã de transformar o Afeganistão em uma “colônia da Índia”.

O Problema do Talibã Paquistanês
Mas a questão da Índia é apenas parte da história. O verdadeiro ponto de discórdia está em um grupo militante chamado Tehreek-e-Taliban Pakistan, ou TTP, conhecido popularmente como o Talibã Paquistanês. Esse grupo é responsável por uma onda de violência que vem crescendo exponencialmente no Paquistão desde que o Talibã afegão chegou ao poder.
O TTP foi formado em 2007 por militantes que atuavam no noroeste do Paquistão. Seu objetivo é impor um modelo de governo islâmico rígido, similar ao do Talibã afegão, ao Paquistão. Ao longo de sua existência, o grupo tem promovido ataques contra mercados, mesquitas, aeroportos, bases militares e postos de polícia. Um de seus ataques mais terríveis ocorreu em 2012, quando seus membros dispararam contra a então estudante Malala Yousafzai, que anos depois receberia o Prêmio Nobel da Paz.
Nos últimos meses, a intensidade dos ataques do TTP aumentou dramaticamente. No início de fevereiro de 2026, um ataque suicida a uma mesquita xiita no Paquistão matou 31 pessoas e deixou outras 130 feridas. Em novembro do ano anterior, após três anos sem ataques à capital, um homem-bomba matou 12 pessoas e feriu 27 em frente a um tribunal. Semanas antes dos bombardeios de fevereiro, militantes emboscaram um veículo policial e atacaram um posto de controle, matando sete policiais e dois civis. Esses ataques foram reivindicados pelo TTP.
O Paquistão culpa o Afeganistão por abrigar a liderança do TTP e muitos de seus combatentes. Paquistão afirma que o grupo usa o território afegão como base para planejar e executar ataques contra alvos paquistaneses. O governo também acusa o Afeganistão de permitir que insurgentes separatistas da província de Baluchistão, no sudoeste do Paquistão, usem o país como refúgio. A província de Baluchistão é palco de conflitos violentos há décadas, alimentados por disputas por recursos naturais e sentimentos separatistas.
Cabul nega repetidamente essas acusações. O governo afegão insiste que não permite o uso de seu território para ataques contra o Paquistão. Em contrapartida, Cabul acusa Paquistão de abrigar combatentes do Estado Islâmico, rival do Talibã e responsável por vários atentados terroristas no Afeganistão. O Paquistão nega essa acusação.
A Escalada Recente
A escalada atual começou com uma série de ataques em fevereiro. No sábado, dia 21, o Paquistão realizou ataques aéreos contra alvos que, segundo o país, eram militantes responsáveis por uma série de atentados suicidas recentes. Paquistão afirmou que o ataque matou pelo menos 70 terroristas. Cabul e as Nações Unidas, porém, disseram que pelo menos 13 civis foram mortos e que o ataque violou a soberania e o espaço aéreo afegão. O porta-voz do governo talibã chamou a ação de “ato terrorista”.
Nos dias seguintes, o TTP intensificou seus ataques no Paquistão. Na terça-feira, dia 24, militantes emboscaram um veículo policial e um homem-bomba atacou um posto de controle. Uma semana antes, um cidadão afegão ligado ao TTP matou 11 membros das forças de segurança paquistanesas e dois civis no distrito de Bajaur.
Esses ataques foram o estopim. Na quinta-feira, 26 de fevereiro, o ministro paquistanês da Defesa declarou: “Nossa paciência chegou ao limite. A partir de agora, é guerra aberta entre nós e vocês”. Poucas horas depois, bombardeiros paquistaneses atacaram Cabul e outras cidades afegãs. O Talibã respondeu com ataques de drones.

O Cessar-Fogo Frágil
É importante notar que esse não foi o primeiro confronto grave entre os dois países. Em outubro de 2025, confrontos na fronteira deixaram dezenas de mortos. Naquela ocasião, um cessar-fogo foi negociado com a mediação de Turquia, Catar e Arábia Saudita. A trégua foi frágil desde o início, marcada por repetidos confrontos e fechamentos de fronteira que prejudicaram o comércio e a circulação de pessoas entre os dois países.
O Paquistão queixa-se de que o cessar-fogo não durou porque o Afeganistão continuou permitindo ataques militantes contra seu território. O governo paquistanês também iniciou uma ampla repressão contra migrantes afegãos a partir de outubro de 2023, expulsando milhões de refugiados que haviam se estabelecido no país. Muitos desses refugiados nasceram no Paquistão décadas atrás e haviam construído vidas inteiras ali. Apenas no ano passado, 2,9 milhões de pessoas retornaram ao Afeganistão, segundo a agência da ONU para refugiados.
O Desequilíbrio Militar
Uma questão que permeia toda essa análise é o desequilíbrio militar entre os dois países. O Paquistão é uma potência nuclear desde os anos 1950, com um arsenal estimado em 170 ogivas nucleares. Seu exército é significativamente maior e mais bem equipado que o do Afeganistão. O Paquistão possui mais de 600 mil soldados em atividade, aproximadamente 6 mil veículos blindados de combate e cerca de 400 aeronaves de combate. Além disso, continua investindo em modernização de suas forças naval e aérea.
O Talibã, por sua vez, mantém um efetivo de aproximadamente 172 mil soldados, menos de um terço do contingente paquistanês. O grupo não possui uma força aérea significativa, contando apenas com seis aeronaves e 23 helicópteros, cuja condição operacional é questionável. As capacidades militares do Talibã estão em declínio, também devido à falta de apoio internacional.
Essa disparidade de poder levou analistas a prever que o conflito não será prolongado. O Paquistão provavelmente intensificará sua campanha militar contra o TTP no Afeganistão, enquanto a retaliação afegã deve vir na forma de ataques a postos de fronteira e operações de guerrilha contra forças de segurança paquistanesas.

O Caminho Adiante
Com as tensões em seu pico, a comunidade internacional está observando atentamente. Pesquisadores que acompanham a situação sugerem que haverá pressão tanto sobre o Paquistão quanto sobre o Afeganistão para cessarem as hostilidades e buscarem uma solução diplomática. Mas essa tarefa se mostra extremamente difícil. Ambos os lados já tentaram negociar soluções diplomáticas no passado, e essas tentativas tiveram sucesso limitado.
O que está em jogo é significativo para ambos os países. O Paquistão enfrenta uma onda crescente de violência militante que desestabiliza sua segurança interna. O Afeganistão, já devastado por décadas de conflito, não pode se permitir uma guerra aberta com seu vizino bem mais poderoso. A comunidade internacional, particularmente as Nações Unidas, tem interesse em evitar uma escalada que pudesse desestabilizar ainda mais uma região já frágil.
O conflito entre Paquistão e Afeganistão é, em sua essência, uma história de aliados que se tornaram inimigos, alimentada por rivalidades regionais, grupos militantes transnacionais e interesses geopolíticos conflitantes. A declaração de “guerra aberta” marca um novo capítulo nessa história, com consequências que ainda estão por se desenrolar.



