Em um movimento inédito que transcendeu as barreiras entre o virtual e o real, a plataforma de jogos Roblox se tornou palco de uma manifestação massiva de seus usuários mirins. Batizado de “A Revolta do Roblox”, o protesto eclodiu após a implementação de novas e rigorosas regras de segurança que restringiram o uso do chat para crianças e adolescentes. O episódio, marcado pela criatividade e pelo humor ácido dos jovens jogadores, reacendeu o debate sobre a proteção de menores no ambiente digital e a responsabilidade das grandes plataformas.
O estopim da revolta foi a atualização global das políticas de comunicação do Roblox, efetivada em 7 de janeiro de 2026. A mudança exige que os usuários comprovem sua idade por meio de verificação facial e limita as interações no chat a faixas etárias semelhantes. A medida visa, primariamente, impedir que menores de 16 anos se comuniquem livremente com adultos, um esforço para combater a atuação de predadores sexuais na plataforma.
O contexto para essa alteração é de crescente pressão legal e social. O Roblox, que conta com mais de 150 milhões de usuários ativos diários e é extremamente popular entre crianças e adolescentes, tem sido alvo de críticas e processos judiciais, como uma ação movida no estado da Louisiana, nos Estados Unidos, que acusa a empresa de falhas na proteção de menores. No Brasil, a discussão ganhou força com a sanção de leis que buscam coibir a chamada “adultização” infantil e a criação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente.
A Criatividade da Manifestação Virtual
A reação dos jogadores foi imediata e surpreendente. Utilizando seus avatares, os usuários organizaram “passeatas” virtuais, exibindo cartazes com frases de protesto que rapidamente viralizaram nas redes sociais. A manifestação demonstrou a capacidade de mobilização e a sagacidade cultural da nova geração.
Entre as mensagens mais notáveis e engraçadas, que misturavam ironia e referências culturais, estavam frases como “Quero injustiça”, “Não tem chat? Que usem as placas”, “Afasta de nois esse cale-se, pai” e “O Roblox tem que dar o chat porque não somos cavalos, somos pessoas”.
Apesar do tom de brincadeira, a mobilização reforça o papel do Roblox como um espaço que vai além do entretenimento, servindo como um ambiente de expressão social e política para o público infantojuvenil.
O Alvo Injusto: O Caso Felca
Um dos aspectos mais controversos do movimento foi o ataque direcionado ao youtuber Felca. Conhecido por suas denúncias sobre a exposição e “adultização” de crianças na internet, o influenciador foi erroneamente apontado pelos manifestantes como o responsável pelas novas regras de segurança.
Felca relatou ter recebido mensagens agressivas e até ameaças de morte em suas redes sociais, com seu nome sendo exibido em cartazes virtuais durante os protestos. O episódio ilustra a dificuldade em discernir a origem de decisões corporativas e regulatórias, levando a um direcionamento equivocado da frustração dos usuários.
O Posicionamento das Autoridades
O Governo Federal brasileiro, atento ao tema, também se manifestou sobre a “Revolta do Roblox”. Embora tenha feito uma paródia bem-humorada dos cartazes dos jogadores, adaptando-os para temas como a jornada de trabalho (“Quero o fim da escala 6×1”), o governo fez questão de ressaltar a seriedade da questão da segurança digital.
“Foi engraçado, mas os riscos que crianças correm na internet não têm graça nenhuma e o Governo do Brasil trabalha muito sério pra protegê-las”, diz a nota oficial, reforçando o compromisso com a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual.
Em última análise, a “Revolta do Roblox” é um sintoma da crescente complexidade da vida digital. Enquanto os jovens usuários reivindicam a liberdade de comunicação, as plataformas e os órgãos reguladores buscam equilibrar essa liberdade com a imperativa necessidade de proteger os mais vulneráveis de riscos reais, como o contato com predadores e a exposição a conteúdos inadequados. O protesto, em sua forma criativa e inesperada, serve como um lembrete de que o ciberespaço é um campo de batalha constante entre a expressão e a segurança.



