Sabe de uma coisa? A gente precisa ter uma conversa séria, de amigo para amigo, sobre essa tal de meritocracia. Porque, vamos ser sinceros, a ideia é tão ridícula que chega a ser engraçada. É a maior piada que o sistema inventou para fazer a gente engolir a desigualdade sem reclamar.
Você já parou para pensar na audácia de quem defende essa “fantasia”? Eles olham para a realidade, para o abismo social que nos separa, e dizem, com a maior cara de pau: “Se você não chegou lá, a culpa é sua. Faltou esforço, faltou mérito”. É o argumento perfeito para o rico dormir tranquilo e para o pobre se sentir um fracassado. É a legitimação ética da desigualdade, como bem disse um pensador por aí.
Meritocracia é o conto de fadas dos privilegiados.
Pense comigo: o sujeito que nasceu com acesso à melhor educação, com pais que pagaram cursinho, com uma rede de contatos que abre portas, ele não está “competindo” em pé de igualdade com quem mal teve tempo de estudar porque precisava trabalhar. Não é uma corrida, é uma largada de 100 metros onde um começa na linha de chegada e o outro, na cidade vizinha. E aí, quando o privilegiado “vence”, ele bate no peito e diz que foi por “mérito”.
Ah, o mérito! Que palavra linda para mascarar a herança, o sobrenome e a sorte.
O que eles chamam de “mérito” é, na verdade, a soma de oportunidades que foram negadas a milhões de pessoas. O esforço existe, claro que existe. Mas o esforço de quem está lutando para sobreviver é infinitamente maior do que o esforço de quem está lutando para ter um carro novo. E quem é recompensado? Quase sempre, o segundo.
E o pior é que essa fantasia nos faz acreditar que a pobreza é uma falha de caráter, e não uma falha do sistema. Se você não prosperou, é porque não se esforçou o suficiente, não “quis” de verdade. Isso é cruel, é desumano e, francamente, é uma ofensa à inteligência.
A meritocracia não é sobre recompensar o talento; é sobre perpetuar o poder. Ela garante que quem está no topo continue lá, e que a base da pirâmide continue se chicoteando com a culpa de não ter “mérito” o bastante.
Então, da próxima vez que alguém vier com esse papo furado de que “basta se esforçar”, você já sabe: essa pessoa está vivendo em uma bolha de privilégio ou está repetindo um mantra que foi criado para justificar a própria sorte.
A verdade é que, enquanto não houver igualdade de oportunidades — e isso está muito, muito longe de acontecer —, falar em meritocracia é apenas uma forma elegante de dizer: “Eu venci na loteria da vida, e você que se vire com a sua falta de bilhete”. E a gente, que não é bobo, não vai mais cair nessa.
Ah, lembrando aqui! Não estou falando que o esforço não vale de nada, você precisa se esforçar e trabalhar sim, mas não caia no conto da meritocracia.
POR: ALEXANDRE RAMOS DUCOFF



