A Ásia volta a enfrentar um período de intensa vigilância sanitária com o ressurgimento de surtos do vírus Nipah (NiV) na Índia, mais especificamente no estado de Bengala Ocidental. Este patógeno, conhecido por sua alta letalidade e por causar graves problemas neurológicos, tem mobilizado autoridades de saúde locais e internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que monitora de perto o risco de expansão.
O Nipah é classificado pela OMS como uma das doenças que merecem pesquisa prioritária devido ao seu potencial epidêmico, ao lado de patógenos como Ebola, Zika e a própria Covid-19.
O Perigo Silencioso: Origem e Letalidade
Identificado pela primeira vez entre 1998 e 1999 na Malásia, o vírus recebeu o nome da vila onde foi descoberto, Kampung Sungai Nipah. O NiV é um vírus zoonótico, o que significa que é transmitido de animais para humanos. Seu reservatório natural principal são os morcegos frugívoros do gênero Pteropus.
O que torna o Nipah particularmente alarmante é sua taxa de mortalidade. Estima-se que o vírus mate entre 40% e 75% dos infectados, um índice extremamente alto. O surto inicial na Malásia resultou em mais de 100 mortes e levou ao abate de um milhão de porcos, que serviram como hospedeiros intermediários.
Sintomas e Transmissão
A infecção pelo Nipah pode variar de quadros assintomáticos a doenças respiratórias agudas e encefalite fatal, que é o inchaço do cérebro. Os sintomas iniciais são inespecíficos, semelhantes aos de uma gripe, incluindo febre, dores de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta.
No entanto, o quadro pode evoluir rapidamente para sinais neurológicos graves, como tontura, sonolência, alteração da consciência e convulsões, podendo levar ao coma em 24 a 48 horas. A infectologista e patologista Carolina Lázari, citada pela revista Veja, destaca que o vírus tem atração pelo sistema nervoso central e pode causar sequelas como déficits cognitivos e alterações psiquiátricas meses ou até anos após a infecção inicial.
A transmissão ocorre principalmente por:
• Contato direto com morcegos infectados ou com animais intermediários, como porcos.
• Consumo de alimentos contaminados por saliva ou urina de morcegos, como frutas ou a seiva fresca da tamareira, um hábito cultural em Bangladesh e na Índia.
• Transmissão entre humanos, embora menos comum, é um risco, especialmente em ambientes hospitalares, o que levou ao alerta e quarentena de cerca de 190 pessoas após a confirmação de dois casos em enfermeiros em Bengala Ocidental.
Vigilância e a Questão da Pandemia
Atualmente, não existe vacina ou tratamento antiviral específico aprovado para o vírus Nipah; o tratamento se limita a cuidados de suporte e paliativos, muitas vezes exigindo internação em UTI.
Diante do novo surto na Índia, países vizinhos intensificaram as medidas de segurança. Aeroportos na Tailândia, Nepal e Taiwan, por exemplo, retomaram protocolos de triagem de saúde semelhantes aos da pandemia de Covid-19, incluindo controles de temperatura e formulários de declaração de saúde para passageiros provenientes de áreas afetadas.
Apesar da gravidade e da alta letalidade, especialistas minimizam o risco de uma pandemia global iminente. O virologista Paulo Eduardo Brandão, da USP, explica que o Nipah ainda não é visto como um potencial causador de pandemia porque está geograficamente restrito e, crucialmente, não se transmite bem entre pessoas como os vírus da gripe ou da Covid-19. Além disso, o gênero de morcegos portadores do microrganismo não é encontrado nas Américas.
Contudo, a cautela permanece. A destruição de habitats naturais e a facilidade de circulação global de pessoas exigem uma vigilância epidemiológica constante para evitar que essa zoonose se transforme em uma nova emergência de saúde pública.



