A quarta-feira, 26 de novembro, amanheceu sob a violência em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Em uma escalada de terror que se estende desde o último domingo (23), a cidade se tornou palco de uma série de ataques orquestrados pelo Comando Vermelho (CV), em uma clara e brutal retaliação à Operação Barricada Zero deflagrada pela Polícia Militar.
A ofensiva policial, iniciada na segunda-feira (24) pelo 7º Batalhão de Polícia Militar (BPM), teve como alvo principal o Jardim Catarina, reduto histórico do CV, de onde já foram removidas mais de 100 toneladas de barricadas que cerceavam o direito de ir e vir dos moradores. A resposta do crime organizado, no entanto, foi imediata transformando vias expressas e bairros populosos em zonas de alto risco.
O Dia do Saque: Quatro Cargas Roubadas em Horas
O ápice da audácia criminosa se deu com uma onda de roubos de carga que atingiu a cidade. Somente na manhã de quarta-feira, quatro caminhões foram interceptados e suas mercadorias saqueadas em bairros como Jardim Catarina, Guaxindiba, Mutuapira e Barro Vermelho.
Em um dos casos, na Estrada de Guaxindiba, um caminhão carregado de alimentos foi abordado por criminosos em motocicletas. As vítimas foram levadas para o interior de uma comunidade, onde a carga foi completamente saqueada. No Barro Vermelho, um caminhão de frios foi alvo, com a mercadoria levada para a comunidade Rua da Feira.
A reação policial a um dos roubos, no Mutuapira, resultou em confronto. Após o roubo de uma carga de eletrodomésticos, policiais do 7º BPM interceptaram os criminosos, culminando em um tiroteio. Um suspeito foi baleado e veio a óbito no Hospital Alberto Torres (HEAT), e outros três foram presos. Uma pistola 9mm e três motocicletas foram apreendidas.
Arrastões e Pânico nas Vias Expressas
Paralelamente aos roubos de carga, a tática de arrastões aterrorizou motoristas e pedestres. As ações se concentraram em pontos estratégicos, como a RJ-104 (na altura de Santa Luzia e Vista Alegre), a BR-101 (Porto do Rosa) e nas proximidades do Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT), no Colubandê.
Relatos de vítimas dão a dimensão do pânico. Um motorista que trafegava pela RJ-104 na tarde de quarta-feira descreveu ter sido alvo de criminosos em motocicletas, que efetuaram disparos contra seu veículo blindado. A violência é tamanha que motoristas de aplicativo relataram ter interrompido suas atividades mais cedo por medo.
A Polícia Civil investiga a possibilidade de que os ataques sejam uma ação coordenada do Comando Vermelho para pressionar as forças de segurança e dificultar o avanço da Operação Barricada Zero.
A Resposta da Segurança e o Apelo à População
Diante da escalada, o 7º BPM reforçou o apelo à população para que utilize os canais de denúncia anônima, buscando informações sobre esconderijos e movimentações suspeitas. A corporação considera a participação dos moradores essencial para conter a onda de violência.
Apesar do cenário de guerra urbana, as forças de segurança registraram prisões importantes. Em uma ação conjunta, um criminoso responsável por uma série de roubos de veículos e cargas em São Gonçalo foi capturado após um confronto no Gradim. Ele foi autuado por tentativa de homicídio, porte ilegal de arma de fogo de uso restrito e receptação de veículo roubado.
A Operação Barricada Zero segue em curso, mas a população de São Gonçalo vive um clima de insegurança que, segundo moradores, beira a calamidade pública. A batalha pelo controle do território, travada entre o Estado e o Comando Vermelho, tem como principal vítima o cidadão comum, que clama por um reforço permanente no patrulhamento e pelo fim do domínio do tráfico.



